16.7.12

Arroz, feijão, mistura

Cássia trabalhava em uma loja do centro de uma cidade do interior. Havia sido promovida e agora tinha a chave da entrada. Abria e fechava, todos os dias, aquele, que mais que um local de compras, significava o ritmo do dia de Cássia. Era sua missão levantar a porta de ferro às 8h da manhã, assim, às 5h estava de pé, para dar um trato na casa, fazer a quentinha do marido, acordar os dois meninos, que pegavam o ônibus para a escola às 6h, o mesmo que ela pegava para o centro. Os meninos saltavam antes, sonolentos, amassados.
Cássia sorria, feliz de ter a sorte dos dois meninos serem amigos e brigarem muito pouco. Pensava que ainda faltava uns bons anos para que eles se formassem no colegial. Esse era seu principal objetivo diário, depois da saúde e da felicidade deles, é claro. Mas que, como questões subjetivas, se camuflam na objetividade do dia-a-dia.
Depois de 20 minutos, descia no ponto a cinco quadras da loja. Caminhava cumprimentando aquelas figuras tão vestidas de rotina, como se aquela rua não pudesse existir sem elas. Frequentemente, alguma outra vendedora já a esperava na porta. Beijavam-se de bom dia e entravam povoando o espaço com conversas infinitas. O dia passava lento, comprido, mas sem tédio. O tempo passava. As mesmas senhoras entravam, alguma estudante desconhecida, o homem que esqueceu a carteira, a criança chorando: alto.
O almoço era rápido. Quase sempre saia com Rogéria, falavam da novela, da promoção de eletrodomésticos daquela semana e riam de algumas pessoas na rua, felizes de uma maldade inocente.
17h, descia a porta de ferro, despedia-se de Rogéria e das outras meninas. No ponto, não esperava mais que 15 minutos, o tempo suficiente, para conversar com o vendedor de balas, que conhecia há anos, era um homem batalhador.
Ao chegar em casa, buscava o marido e os meninos. Quase sempre os três estavam na rua. Os meninos jogando bola e o marido sinuca. Sim, não era um marido perfeito, jogava e bebia, mas trabalhava, ajudava na casa e tinha amor.
Um banho e janta. Arroz, feijão, mistura. Assim que a comida cheirava pronta, estavam todos na mesa. O menino mais novo fazia piada, o mais velho frenquentemente brigava com o pai briga boba de crescer. Deixavam a mesa, saiam para a TV, para os cadernos e portões.
Ela lavava a louça e assumia o controle da TV, era hora da novela. Todos viam juntos e iam, aos poucos, se retirando para dormir.
Esse era um dia comum, que se repetia, mas falhava como na vida de todos. As vezes alguém ficava doente, alguém brigava, alguém repetia de ano, alguém chorava por amor, alguém tocava violão, alguém cortava o dedo, alguém casava, alguém morria, alguém tinha nenem.
Mas aquele ritmo persistia para muito além dos fatos, era algo natural, como o nascer do sol. 
De longe, eu observava. E inveja o ritmo natural de Cássia.

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